PERSISTÊNCIAS
CURADORA FRANCINE GOUDEL
EXPOSIÇÃO COLETIVA
"Persistências reúne a produção de artistas selecionados por meioda chamada pública do Projeto Cultural Joinville+Cult 2ª Edição, configurando um panorama das produções contemporâneas desenvolvidas sobretudo em Santa Catarina, atravessadas por diferentes linguagens, territórios, experiências e modos de elaboração sensível do presente.
Persistir é o verbo que dita o tom desta conjunção. Embora próximo da ideia de insistência, persistir distingue-se da simples repetição, implica reinvenção diante do desgaste, imaginação frente ao impasse, criação de estratégias para continuar elaborando aquilo que permanece em disputa. É sustentar um gesto mesmo em meio à instabilidade, fazer sobreviver imagens, corpos, afetos e narrativas diante das forças de apagamento, contenção ou colapso.
Os trabalhos aqui apresentados partem desse horizonte. Entre deslocamentos, ruínas, memórias, ancestralidades e fabulações, as obras investigam aquilo que persiste: identidades em construção, paisagens interiores, resíduos do progresso, espiritualidades, vínculos comunitários e experiências sensíveis ameaçadas pela normatização técnica e social.
Entre pinturas, instalações, vídeos, desenhos e objetos, a exposição articula práticas que transformam precariedade em invenção, ausência em construção simbólica e colapso em potência crítica.
Mais do que afirmar permanências estáveis, "Persistências" reúne artistas propositores de um exercício contínuo das sensibilidade diante do mundo."
Francine Goudel
Curadora

ECO ZAZU
Eco Zazu nasce em 2018, criada por Allan Cardoso durante sua graduação em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina.
Desde então, a drag assume o centro de suas ações e pesquisas artísticas, articulando sensibilidade, humor e fabulação na construção de sua identidade. Em A boneca que faltava, Eco protagoniza a cena central da instalação ligado a personagens do imaginário infantil. O trabalho parte de uma memória de infância, quando utilizava ursinhos da turma do Pooh como bonecas improvisadas, já que não podia tê-las. Ao revisitar conscientemente esse gesto inocente de desejo e invenção, infância e experiência drag se encontram em um alinhavo de fitas, imagens de memória e da identidade atual, aproximando a criatividade infantil da construção do presente. A instalação insere esse reencontro em um contínuo processo de invenção de si, onde corpo, afeto e imaginação tornam-se inseparáveis.


Eco Zazu
A boneca que faltava, 2025
Instalação – pintura acrílica sobre tela, fotografia impressa em fine art e fitas de cetim
130 x 150 cm
ISABELLE MARIANA
Isabelle Mariana, natural de Lages e graduanda em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis, tem no percurso frequente entre as cidades um dos eixos centrais de sua pesquisa.
Utilizando a pintura como linguagem primordial, a artista procura representar em diferentes suportes as sensações e percepções produzidas pelo deslocamento entre as paisagens. Sua investigação parte da observação do entorno: os verdes das montanhas da serra, os cinzas coloridos do céu, a atmosfera neblinosa, as visitas à praia e as relações de distância entre as coisas. A partir de registros fotográficos revisitados no ateliê, Isabelle constrói composições que dialogam com uma experiência contemplativa. Espaços vazios que conceituam a ausência, a gradação de tons rompidos que suscitam introspecção. Mais do que representação da paisagem, sua pintura parece elaborar um exercício contínuo de observação das transformações da natureza e dos estados interiores que nela se projetam.


Isabelle Mariana
Um novo amanhecer desvanece, 2025
Óleo sobre madeira
40 x 52 cm

Isabelle Mariana
Há mistérios na vida, 2025
Óleo sobre madeira
43 x 56 cm

Isabelle Mariana
Meio de viagem, solidão, 2025
Óleo sobre tela
80 x 60 cm
JAN M.O
Jan M.O desenvolve trabalhos em multimeios investigando as relações entre palavra e imagem, explorando semântica, som e engenharias visuais como modos de refletir sobre dimensões da vida pessoal e coletiva.
Realizada no interior da antiga Fábrica da Antárctica, em Joinville, a obra apresentada transforma um local marcado pela promessa de se tornar polo cultural em imagem de abandono e questionamento. Entre vestígios de projetos interrompidos e as ruínas do incêndio ocorrido em 2021, o artista e a pesquisadora Alena Marmo sustentam uma faixa com a palavra título da obra. O termo de 46 letras designa uma doença causada pela inalação de cinzas vulcânicas e opera como metáfora da contaminação simbólica provocada pela perda e deterioração do espaço cultural. A palavra é sustentada pelos pesquisadores, a imagem impressa em tecido sustentada por escoras metálicas. O arranjo da ação prolonga a fragilidade estrutural do campo das instituições de arte no Brasil, tentando manter de pé aquilo que está à beira do colapso.


Jan M.O Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico (Fábrica Antarctica), 2025/2026
Fotoperformance - fotografia impressa em tecido e escoras metálicas
72 x 120 cm Performers: Jan M.O e Alena Marmo
Registro: Gabriel Bazt
KARINE ABBATI
Karine Abbati desenvolve uma pesquisa atravessada por questões de gênero e idade, investigando como normas sociais moldam a presença dos corpos nos espaços coletivos, sejam eles físicos, simbólicos ou imaginados.
Trabalhando sobretudo com a pintura, a artista se apropria da tradição da técnica para construir o que denomina “pintura performática”: imagens encenadas que instauram estranhamento e deslocam modos habituais de ver e representar as existências. Nas obras aqui apresentadas, senhoras ocupam um espaço de fabulação como território de liberdade, atravessado por irreverência e crítica social. Historicamente associadas ao cuidado, à discrição e ao ambiente familiar, essas mulheres surgem em cenas que reivindicam autonomia. Karine desmonta os hábitos do olhar e desloca as convenções, compondo um efeito crítico que culmina em imagens que pensam outras possibilidades de presença, convivência e emancipação.


Karine Abbati
Mulheres bebendo é feio, portanto, homens ficam em casa, 2024
Óleo sobre tela
110 x 90 cm

Karine Abbati
Uma e três peruas, 2026
Óleo sobre tela
50 x 60 cm
KETHLEN KOHL
Em sua prática artística, Kethlen Kohl articula experiências pessoais e profissionais em diferentes suportes e linguagens. Transitanto entre tecnologia, software, hardware, arte, música e história, a artista utiliza essas ferramentas não apenas como meios técnicos, mas como dispositivos de reflexão crítica sobre o presente.
Em Curie x Oppenheimer, imagens de raio X do próprio corpo tornam-se suporte para uma pintura que tensiona os usos do conhecimento científico e tecnológico. Sobre as transparências médicas, a trajetória de uma bomba atômica atravessa o corpo, aproximando visualmente cura e destruição. O público é convidado a participar da obra acionando um botão azul ou vermelho, referência direta às pílulas do filme The Matrix (1999). Cada escolha ilumina uma possibilidade: de um lado, a radioatividade como avanço da medicina, associada às pesquisas de Marie Curie; de outro, sua instrumentalização bélica na arquitetura letal concebida por J. Robert Oppenheimer. A obra transforma-se, assim, em um dilema ético acionado pelo próprio espectador.


Kethlen Kohl
Curie X Oppenheimer, 2026
Pintura interativa
54 x 105 x 7 cm
MARCIA LEPAGE
Marcia Lepage é artista visual cuja trajetória atravessa o design, a moda e a direção de arte publicitária. No final da década de 1990, encontra no vidro o material que transforma profundamente sua produção artística, passando a desenvolver pesquisas entre o objeto utilitário e a escultura.
Por meio do fusing, técnica milenar que consiste na fusão e sobreposição de fragmentos de vidro submetidos a altas temperaturas, Marcia constrói trabalhos que exploram transparência, densidade, textura e tensão entre formas concretas e abstratas. Em Tema livre, o vidro aquecido molda-se às estruturas metálicas que, ao mesmo tempo, sustentam e aprisionam a obra. Grades, correntes e formas que evocam celas ou enforcadores instauram uma reflexão sobre os limites da liberdade individual e os mecanismos sociais que condicionam comportamentos e subjetividades. Entre fragilidade e resistência, delicadeza e ameaça, a escultura transforma materiais rígidos em metáforas das contradições humanas, eixo recorrente na pesquisa poética da artista.


Marcia Lapage
Tema Livre, 2024
Fusão de vidro (Fusing), metal e tinta
90 x 35 cm
MAURÍCIO IGOR
Mauricio Igor é artista que transita por diferentes mídias: fotografia, performance, vídeo, texto, intervenção urbana, instalação e pintura. Nascido e criado em Belém, no Pará, desenvolve uma produção que articula corpo e território, tensionando os movimentos de sua origem em diálogo com outras regiões do mundo. Em suas obras, o ventilador improvisado por gambiarras surge como símbolo de permanência, deslocamento e resistência. A partir da quebra de um objeto doméstico e de seu reparo improvisado, o artista inicia uma convocatória pública em bairros de sua cidade, reunindo ventiladores remendados e as histórias de quem os mantém funcionando. O que poderia representar precariedade transforma-se em gesto inventivo e estratégia de sobrevivência. Associado a auto represetação do corpo afro-amazônico em trânsito, o ventilador passa a operar como metáfora de tudo aquilo que continua circulando quando alguém se desloca: memórias, culturas, espiritualidades e modos de existir. Para Mauricio, quando um corpo amazônida parte, a Amazônia parte junto com ele.



Maurício Igor
Compra-se ventiladores com gambiarras e suas histórias, 2021-2022
Vídeo-arte, 8'27"
Lambes, 21 x 29,7 cm

Maurício Igor
Anda contigo, 2022
Acrílica sobre compensado
152 x 137 cm
TAUAN GON
Tauan Gon é artista e arte-educador de origem mineira que atualmente vive e trabalha em Florianópolis.
Por meio de diferentes meios e linguagens, em práticas individuais e colaborativas, desenvolve uma investigação sensível sobre os regimes de representação do corpo negro, articulando questões da cultura, política, identidade e ancestralidade. Na série Mandinga, o artista elabora, através do desenho em carvão e procedimentos de decalque, um vocabulário visual orientado por perspectivas afrocentradas de pertencimento e memória. Figuras em perfil surgem atravessadas pelo ritmo, pelo rito e experiência. A repetição de silhuetas sugere o movimento do corpo reagindo ao som do tambor, enquanto o tronco mais estável alude a uma dança interiorizada, suspensa entre presença e transe. Elementos como o crânio hominídeo, objetos de práticas religiosas afro-brasileiras e a floração do dendezeiro evocam espiritualidade, morte e continuidade ancestral. Tauan Gon propõe um vocabulário visual em que o movimento se torna gesto de reescrita simbólica e afirmação da subjetividade afro-brasileira.


Tauan Gon
Mandinga – desenho 3, 2025
Carvão sobre papel
70 x 50 cm

Tauan Gon
Mandinga – desenho 4, 2025
Carvão sobre papel
70 x 50 cm
TIROTTI
Tirotti é artista visual que investiga as possibilidades de montagem e narrativa da imagem por meio do vídeo, da fotografia e da instalação. Utilizando materiais encontrados no entorno, desenvolve trabalhos que articulam dimensão social, construção poética e experimentação visual, tensionando o esgotamento das formas tradicionais de representação. Sua pesquisa desloca o olhar para os sentidos que emergem dos restos, das superfícies e dos vestígios produzidos pelo tempo, propondo reflexões sobre memória, matéria e colapso contemporâneo. Em Tempo aos Montes, fragmentos metálicos, ferrugens e sucatas erguem-se como uma montanha de resíduos industriais. O movimento vertical do vídeo percorre lentamente essa paisagem de acúmulos, revelando uma geografia marcada pelo desgaste. Entre a opacidade das estruturas corroídas, a presença humana aparece apenas como sombra refletida sobre o solo árido, um vestígio de uma humanidade que associou tecnologia à promessa de futuro. A videoinstalação transforma o acúmulo em estado de suspensão. Uma inflexão sobre o tempo, um intervalo que empilha silenciosamente as ruínas deixadas pelo progresso.


Tirotti
Tempo aos Montes, 2025
Videoinstalação, 1’30”
275 x 110 cm
ROGÉRIO NEGRÃO
Rogério Negrão é artista multimeio que investiga, ao longo de sua trajetória, as relações entre experiência humana, objetos e sistemas. Por meio de instalações e mecanismos visuais, desenvolve uma produção marcada pelo uso de analogias mecanicistas e de uma ironia sutil, buscando revelar estruturas padronizadas que atravessam comportamentos, crenças, hábitos e modos de pensar. Seus trabalhos habitam um estado simultaneamente contemplativo, poético e crítico, propondo reflexões sobre os modos como nos relacionamos com as lógicas de eficiência, previsibilidade e controle. Na série Humanos preferem máquinas, imagens de robôs de brinquedo dos anos 1950 e desenhos de patentes industriais são reorganizados em colagens digitais posteriormente impressas e atravessadas por intervenções aquareláveis. As composições evocam o fascínio moderno pela tecnologia e o conforto oferecido pela precisão mecânica. Em contraponto, manchas de água e tinta irrompem a superfície com formas instáveis e imprevisíveis. A obra tensiona a sedução da lógica técnica diante da dimensão sensível da experiência humana, interrogando aquilo que deixamos de perceber ao confiar excessivamente nas promessas da máquina.


Rogério Negrão
HPM 1, 2024
Série Humanos Preferem Máquinas
Colagem digital, impressão sobre papel algodão, aquarela e nanquim
32 x 50 cm

Rogério Negrão
HPM 3, 2024
Série Humanos Preferem Máquinas
Colagem digital, impressão sobre papel algodão, aquarela e nanquim
32 x 50 cm

Rogério Negrão
HPM 9, 2024
Série Humanos Preferem Máquinas
Colagem digital, impressão sobre papel algodão, aquarela e nanquim
32 x 50 cm

Rogério Negrão
HPM 10, 2024
Série Humanos Preferem Máquinas
Colagem digital, impressão sobre papel algodão, aquarela e nanquim
32 x 50 cm
FICHA TÉCNICA DA EXPOSIÇÃO
Projeto: Joinville+CULT 2ª Edição
Título: Persistências
Curadoria: Francine Goudel
Artistas: Eco Zazu, Isabelle Mariana, Jan M.O, Karine Abbati, Kethlen Kohl, Marcia Lepage, Mauricio Igor, Rogério Negrão, Tauan Gon, Tirotti
Local: Galeria 33 Endereço: Rua Bento Gonçalves, 33 - Glória, Joinville/SC
Abertura: 23 de maio de 2026
Data de visitação: 23 de maio a 18 de julho de 2026
Realização: Cooperfilm Cine e Video
Patrocínio: Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura
Equipe técnica:
Jonatas da Silva (Transporte de obras)
Billy W Piana (Montagem)
Rubens Herbst (Assessor de Imprensa)

