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Um dia, um olhar...
Décio Soncini

 

Curadoria

Sandra Makowiecky

Walter de Queiroz Guerreiro

Logo Décio Soncini

Abertura

13 de agosto | 2026 | 19h

Visitação

14/8 a 20/11/2026

de segunda a sexta

das 10h00 às 18h00

Galeria 33

www.galeria33.com

contato@galeria33.com

47 99706-8105

Rua Bento Gonçalves 33B

Glória - Joinville - SC

Catálogo da exposição

Catálogo um dia, um olhar

Décio Soncini em “Um dia, um olhar...”

Compreendendo a criação contemporânea como construção de mundos possíveis que produz novas relações de tempo e espaço, sensações e percepções, o trabalho de Décio Soncini inscreve-se na linha de artistas que se propõem a discutir as relações entre arte e mundo, arte e vida, a partir de obras reunidas sob o título ‘”Um dia, um olhar...”. São inúmeros os artistas que estabelecem conversas íntimas com a natureza. Isso não é novidade. Mas o fenômeno da multiplicidade das artes na contemporaneidade, numa forma de abordagem que privilegia a consistência material, prepara o surgimento de manifestações artísticas que sugerem a formulação de uma nova poética estética ou, na pluralidade dos acontecimentos, as assim chamadas “estéticas sensoriais”. Diz-se que, na busca de um olhar mais contemplativo, ao mesmo tempo crítico, esses artistas buscam aproximar arte e vida através da invenção de temporalidades e espacialidades, de paisagens íntimas e afetivas, da criação de sensações e de mundos possíveis. Ou seja, as estéticas sensoriais buscam desafiar os métodos tradicionais associados em imagens e racionalidade e desejam renovar a maneira como a matéria sensível (o que percebemos pelos sentidos) é experimentada e valorizada. Elas desejam transformar ou renovar a forma como a experiência sensorial é captada, percebida ou entendida. Seria então o trabalho de Décio algo que transforma nossa experiência sensorial? Pergunto, pois o trabalho de Décio mantém uma certa familiaridade. Já vimos algo ali que nos desloca no tempo, cores e formas que nos levam para o universo de Paul Cézanne, alguns outros trabalhos, para um certo desassossego de Vincent Van Gogh, umas desconstruções de Piet Mondrian, umas naturezas mortas cheias de vida de tantos outros. Todavia, a obra de Décio apresenta unidade, está em sintonia, transmitindo, sobretudo nas telas de cores frias, sensações de calma, tranquilidade, frescor e relaxamento, mas também mistério e sobriedade e, em algumas delas, confesso, eu “vi e ouvi o vento”. Ou seja, é um sentir no mundo contemporâneo. O que podemos ver e o que nos escapa? Décio desenha e pinta, desejos e imagens impregnadas de sua relação com a natureza, criando sensações também em nós, que as contemplamos. O trabalho que vemos nessa exposição me faz lembrar de Deleuze e Guattari (1997)1, para quem a obra de arte é entendida como algo feito de sensações. Essas sensações permanecem vivas independentemente das pessoas ou dos objetos representados. Para os autores, o artista é aquele capaz de criar experiências sensíveis e emocionais novas, que libertam e intensificam a vida. Eles criam fabulação, uma narrativa imaginária. Além da fabulação, encontramos em Décio, um artista que conhece fatura, pintura, desenho, composição, teoria das cores, entende do riscado, sendo bem explícita. Que diálogos ele estabeleceu com a natureza e porque eles nos afetam também? Qual seria um caminho para nos aproximarmos do terreno dessas sensações? Seguem então as palavras de Deleuze e Guattari, trazendo um exercício de possibilidades ao encontrar nas cores, a sensação, encontrar “...seres de sensação que conservam em si a hora de um dia, o grau do calor de um momento...” (1997, p.219). Parece-me que foi isso que ele nos disse com “Um dia, um olhar...”. Repito e acrescento: um dia, um momento, um olhar. Para mim, nada há de tão atual quanto isso, pois sempre foi assim: o tempo é eterno e infinito, revisto, reelaborado e novamente sentido, produzindo sentido.

Sandra Makowiecky
Professora de Teoria e História da Arte
Crítica de arte da ABCA - Associação Brasileira de Críticos de Arte

1- DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. O que é a filosofia. São Paulo: Editora 34,1997.

Um dia, um olhar...

O que conduz o olhar na percepção de um artista como Décio Soncini é uma incógnita, como em todo processo de criação. Percepção como algo fugaz, um relâmpago que também reside na memória, naquele desvão da consciência como impulso aferente da sensibilidade, e eferente no impulso motor que conduz o traço. Rudolph Arnheim em sua obra sobre percepção visual e arte aponta as “forças” na Gestalt não como meras figuras da retórica, porém como impulsos reais, dentre elas a forma como configuração visual do conteúdo, nas palavras do artista realista norte-americano Ben Shan: o desenho é a forma que melhor revela o autor. Por isso o desenho é comunicação direta seja no grafite, seja na goiva do gravador, ele retém a energia do impulso ou a contenção do gesto não como indecisão, mas como opção, um respiro no traço, imprime fluxo no movimento ou tensão interna na estaticidade. Vejo Décio essencialmente como um desenhista, ele pode agregar cor, luz e sombra às suas criações e o faz na medida certa em sua pintura, contudo o traçado básico permanece oculto como obra planejada no embate diário entre ele e o mundo, a estrutura está ali como o filósofo Gilles Deleuze disse, é uma geratriz no código da imanência, pertencendo à essência de seu pensamento. Assim sendo, se nos debruçarmos sobre suas obras veremos que os detalhes são elementos centrais na composição, atuam com âncoras. Podem ser a construção geométrica nos galhos de uma árvore, o galpão entrevisto na janela, o tecido largado na máquina de costura, o emaranhado no bambuzal, a faixa de pedestres rumo á casa. Esses galhos desnudos, que retornam de tempos em tempos na sua obra como frias construções, em verdade são metáforas visuais dos labirintos do Ego, vistos pela psicanálise como materializações de contradições da realidade no jogo de que o “eu’ não existe isolado, está sempre conectado ao “Outro” nos conflitos internos; Lacan o interpreta como a relação entre o vazio e o Outro, reafirmando que a realidade é sempre inconstante, diria, temos vislumbres, visões parciais, afinal com expressos nas palavras de Wittgenstein : ‘ Os limites da minha linguagem são os limites de meu mundo, na representação exponho minha compreensão do mundo vivido”, e o corpo assim se expressa na arte pelo que sente, o sentido de experiência na percepção do mundo. Se por um lado o detalhe implica realismo, existe aí uma contradição íntima – o artista é um romântico ao contar sempre uma história pessoal, porém o faz com maestria ao nos ocultar, nosso olhar desliza sobre os detalhes embora estejam recortados em suas formas, a narrativa falando mais alto aos observadores. Ah! Isso me faz lembrar…desse modo se sucedem no leque de temas a máquina de costura familiar, o bambuzal no terreno ao lado, o atelier, as demolições tão comuns na Pauliceia desvairada, o bosque do Museu do Ipiranga, a rua do bairro, o sapateiro e outras tantas. Ocorre então uma distinção essencial, nós buscamos identificar os objetos sem nos preocuparmos com o fundo, enquanto ele se afasta da tradição clássica e achata os planos, numa configuração contínua de um jogo de alternância de formas separadas em seus detalhes particulares, como um grande quebra-cabeça entre a realidade e a memória, bastante explícito na obra “Aqui não é lá”. E um dia bem cedo, como de hábito o artista vai fazer sua caminhada, sai de casa e na volta no lusco fusco com a casa ainda nas sombras, seu olhar se detém sobre o jovem pé de Ipê florido durante a noite, manchas amarelas de curta duração como tudo na vida, e da solidão dos seres e da natureza em seu relacionamento com os homens, quantos parariam um instante para admirar tanta beleza. Naquele mesmo dia no atelier pinta “Impressões em preto e branco revisitado pelas cores”. — Senhores, as fichas estão na mesa, o jogo está feito. Nada melhor que Maurice Merleau-Ponty para compreender essa relação íntima entre o visível e o invisível, como afirma em “O olho e o espírito”: A filosofia por fazer é a que anima o pintor, não quando exprime opiniões sobre o mundo, mas, no instante em que sua visão se faz gesto, quando então dirá Cézanne, ele pensa por meio da pintura”.

Walter de Queiroz Guerreiro
Prof. M.A.- Crítico de Arte (ABCA/AICA)

Sobre a Exposição "Um dia, um olhar..."

Com 55 pinturas, a exposição “Um dia, um olhar…”, do artista visual Décio Soncini, propõe o resultado plástico de caminhadas reais e virtuais pela memória, numa variedade de temas desde o familiar até paisagens desfrutadas no dia a dia, pintadas desde pequenos formatos até grandes telas.

Artista com extenso currículo, sua obra transita entre o visto e o imaginado, como um diálogo aberto aos observadores, tal como um registro de um romântico em que nada existe por acaso na vida e na fantasia.

A exposição conta com a curadoria dos críticos de arte Sandra Makowieky e Walter de Queiroz Guerreiro. Na seleção, que será apresentada ao público, o artista visual faz um apanhado da sua produção nos últimos doze anos, com uma técnica própria na representação figurativa, trabalhando referências do cotidiano com linguagem extremamente pessoal, sempre desafiando o “como fazer” e buscando soluções pessoais para questões que envolvem forma, espaço, cor, luz e ritmo.

Involuções, 2025
Aqui não é lá, 2016

Obras da exposição (clique na imagem para melhor resolução)

Nascido em São Paulo, em 11 de fevereiro de 1953, Decio Soncini licenciou-se em desenho e plástica e fez o bacharelado em gravura na Escola de Belas  Artes de São Paulo, com término em 1974. Desde então, tem participado de diversos salões, exposições individuais e coletivas em diversas cidades brasileiras.

Foi integrante do grupo “Guaianazes” formado na década de 70 e que, segundo o critico de arte Olívio Tavares de Araújo, tinha, além de uma preocupação comum de domínio do fazer artístico “... o escopo definido pela figuração persistente, pela matriz expressionista e pelo alto coeficiente de catarse...”.

Nos anos 80, segundo crítica de Enock Sacramento, “o homem é uma presença quase obsessiva em sua obra. As figuras humanas – a maioria das quais feminina – aparecem quase sempre de costas, isoladas, com uma torção de cabeça. Os detalhes são sacrificados em benefício do todo. Os rostos são apenas esboçados, pois Soncini não pinta um homem, mas o homem. Às vezes aparecem casais. Nestes trabalhos, denominados “Evoluções”, o jogo amoroso é ambíguo e o erotismo inexistente.”

Na década de 90, dá inicio à proposta batizada pelo crítico Walter Guerreiro de “o olhar circunvagante”. Partindo do principio de que, conhecendo a sua aldeia você entenderá melhor o mundo, o artista passou a observar e registrar o entorno do seu quintal, na época localizado no bairro da Casa Verde, zona norte da cidade de São Paulo. Desde então, a cada mudança de “quintal”, a série é periodicamente retomada. Atualmente o “quintal” se situa ao lado do bosque do Museu do Ipiranga e, a ação da luz e do tempo sobre os jardins, arvoredos, folhagens e flores passaram a ser os personagens da série.

esperando
Décio_03
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