CROMOGRAFIA

A Cromografia de Alceu Bett

A abstração nas artes ainda causa dúvidas – pasmem – naqueles que entendem o motivo visual apenas como realidade absoluta da figuração. A interrogação ao que não é visível supera, muitas vezes, o verdadeiro questionamento que a criação artística nos propõe.
Costumo afirmar que o primeiro passo para dirimir as distâncias entre o artista e o público é o total desnudamento dos preconceitos. De ambas as partes, atentem-se. Assim não há por que mensurar excessivas filigranas às perguntas:
- Qual o discurso pictórico do artista Alceu Bett ?
- O que nos diz a fatura de sua obra, toda produzida no assombroso ano de 2020 ?
É nas entrelinhas que vamos encontrar as respostas.
Alceu Bett é um fotógrafo de consolidada carreira profissional que inicia experiências no ofício da pintura. Já aí surpreende. É inevitável, entretanto, observar algumas comparações para quem o conhece das imagens de vaporosas bailarinas em musculosos movimentos
coreográficos, capturadas nos festivais de dança em diversos países. Ou ainda lembrar da geometria luminosa nos testemunhos esquadrinhados em esquinas de cidades ibéricas e caribenhas.
É o registro do instante único e fugaz, do olhar do cineasta, do fotógrafo, do observador sensível que corporifica também a pintura de Alceu Bett. O artista, consciente do seu domínio, reelabora a luminosidade, a espacialidade, o cromatismo e a essência em suas novas criações. Alceu Bett intitula essa nova série de Cromografia.
Poderíamos ir além nessa análise, pois seu alfabeto ideográfico é um caleidoscópio de memórias. Está ali em suas telas, cobertas por tintas alquídicas, a busca da reorganização dos fatos, das fantasias e sonhos: o som alegre das famílias de origem italiana em volta da mesa, o gesto do avô construindo instrumentos musicais, o paladar dos frutos maduros nos
quintais de sua infância em cidades do interior, a velocidade e a cor das grandes metrópoles....

Sua arte supõe-se rasgos de improviso, mas também de reflexão e meditação, resultando um abstracionismo lírico de franca visualidade contemporânea. Alceu Bett é um artista cuja inquietação de sua personalidade vem para provocar, desenvolvendo a linguagem do
inconsciente cuja gestualidade liberta seu interior.

Edson Busch Machado, curador
Ilha de Santa Catarina, Verão 2021

CROMOGRAFIA é a escrita feita de cor. Uma algaravia de traços interrompidos com um gestual seco, convertendo a forma em fratura exposta. Um nome é também uma sina. Assim, quando se assina em CROMOGRAFIA, Alceu Bett descreve uma preexistência grafada em sua trajetória. A expressão esticada no curtume da tela é resultado de um processo alquímico, que lasca a forma cristalina da fotografia – linguagem original do artista – até chegar a esse ramalhete de destroços, ofertado sem retoques em sua estreia como pintor. Fruto da imersão febril em seu quarto de quarentena, onde compôs o seu bastão de tinta, CROMOGRAFIA é uma reinvenção do futuro, feita de farpas e acúleos. Ainda assim, uma visão de vitalidade, vibrante e colorida.

Joel Gehlen

Set/2020

 
Alceu Bett | A criação do Mundo, 2020

Alceu Bett | A criação do Mundo, 2020

Alceu Bett | Drago 2020

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Alceu Bett | Alma Pelicana, 2020

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Alceu Bett | Genesis 2020

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Alceu Bett | A odisseia 2020

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Alceu Bett | Titãs, 2020

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Alceu Bett | A casa velha da fazenda, 2020

Alceu Bett | A casa velha da fazenda, 2020

Alceu Bett | O circo  2020

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Alceu Bett | A saga da ânfora  2020

Alceu Bett | A saga da ânfora 2020

Alceu Bett | O encontro,  2020

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Alceu Bett | O naufrágio 2020

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Alceu Bett | Revolução dos bichos 2020

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Alceu Bett | Maré Seca, 2020

Alceu Bett | Maré Seca, 2020