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estacao final

Joinville,
de Toda Nossa Infância
UM FILME DE ALCEU BETT

NOTAS DO DIRETOR

"Sempre me apaixonei por cidades.

Algumas delas passaram pela minha vida como uma fotografia. Outras permaneceram. Havana, Lisboa, Marrakech, São Francisco do Sul. Lugares que continuaram me acompanhando muito depois da viagem terminar. Lugares aos quais retorno sem perceber, não apenas pela lembrança de suas ruas ou de sua arquitetura, mas por algo mais difícil de nomear. Talvez porque toda cidade possua uma alma construída pelas pessoas que a viveram. Com o tempo percebi que aquilo que mais me interessava não eram os monumentos, os edifícios ou os cartões-postais. O que me fascinava era tentar compreender de que forma um lugar passa a fazer parte de alguém. Foi dessa pergunta que nasceu Joinville de Toda Nossa Infância.
Existe, porém, uma pequena ironia em sua origem. Minha infância não aconteceu em Joinville. Cheguei aqui aos quinze anos, numa idade em que a infância já começava a ficar para trás. As lembranças dos meus primeiros anos pertencem a outras paisagens. Talvez por isso eu tenha passado tanto tempo escutando as memórias daqueles que cresceram aqui. Ao longo da realização do filme ouvi artistas, professores, trabalhadores, comerciantes, moradores antigos. E percebi que, quando falavam da infância, estavam falando também da cidade. Falavam de uma cidade feita de experiências. De bicicletas correndo pelas ruas. De banhos de rio. De terrenos baldios que pareciam infinitos. De árvores que serviam de abrigo, de encontro ou de aventura. A presença de Juarez Machado atravessa naturalmente essa narrativa. Sua infância em Joinville continua habitando sua pintura como uma memória que nunca deixou de produzir imagens. As bicicletas que retornam, os personagens que reaparecem, os cenários que insistem em permanecer revelam algo que me interessa profundamente: certos lugares não desaparecem quando são transformados pelo tempo. Eles continuam existindo dentro das pessoas. Ao escutar essas histórias, comecei a imaginar uma infância que não foi minha. E talvez seja justamente isso que este filme procura fazer. Imaginar a infância de uma cidade.
Mas talvez o cinema exista justamente para isso. Para aproximar aquilo que não vivemos. Para nos permitir habitar, ainda que por instantes, a experiência de alguém. No final, compreendi que Joinville de Toda Nossa Infância não é apenas um filme sobre memória. É um filme sobre pertencimento. Sobre aquilo que recebemos dos lugares sem perceber. Sobre a forma como uma rua, uma bicicleta, uma árvore ou uma paisagem continuam vivendo dentro de nós muito depois de terem desaparecido. Porque as cidades mudam. As gerações passam. Mas existe sempre alguma coisa que permanece. E talvez seja justamente essa permanência invisível que chamamos de infância."

Alceu Bett

SOMOS FEITOS DE INFÂNCIA

Outdoor JDTNI

– Afinal, do que somos feitos?

Agora mesmo, pense na sua infância.

Aparece um lugar difuso, figuras indistintas, coisas e pessoas num espaço não-linear, cenas embaralhadas, um cheiro distinto, um rosto quase presente.

Mesmo que você viesse a juntar todas essas partes elas não formariam a criança que você foi.
É preciso esforço e concentração para compor uma cena completa, com algo de arrebatamento.

A CIDADE NARRADA

Mas claro! Antes de qualquer outra ideia, a bicicleta era uma máquina de engolir as distâncias. Chegava sempre mais rápido a qualquer lugar quando ia na garupa com seu pai.

Era uma aventura de pássaro.

Quando calhava de voltarem de onde foram já com a noite estendida, o enlevo era supimpa. Com um toque no dínamo, o dispositivo era inclinado para roçar o pneu dianteiro.

E fazia-se a luz.

Quando a bicicleta se tornou uma relíquia que lhe coubera de herança, manteve o ritual de colocar gotas de óleo Singer em todos os pontos metálicos visíveis. Fazia isso sempre à noite.

Depois, desligava a luz elétrica e acionava a iluminação da bicicleta.

Foi então que teve a epifania de ver imagens na luz do farol projetado da bicicleta na parede branca da garagem.

Gira as rodas como se fosse uma moviola, onde vê e revê cenas em preto e branco, ou nas cores desbotadas da infância.

E vai rebobinando o filme da memória. Mesmo sem sair do lugar, repassa caminhos, percorre ruas por onde andou.
Revê pessoas de diferentes épocas, todas juntas, diferentes idades, todas na infância. Recobra o sabor de um sorvete na Polar e sente na boca os grumes açucarados do chineque da Brunkow.

Reencontra a Joinville de toda a sua infância. Os amigos, a turma da escola, a casa antiga. O cheiro de terra no ar ao cair das grandes chuvas de verão.

E se conseguisse suprimir todos os momentos sem memórias da infância, a vida inteira caberia naquele grão de açúcar enquanto se derrete na boca.

Joel Gehlen, Roteirista

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